Privação de sono e osteoporose.

Privação de sono e osteoporose.

Todos já ouvimos falar da osteoporose, uma grave doença que fragiliza os ossos e causa grande sofrimento a pessoas idosas. Pesquisas recentes tentam identificar uma possível relação entre privação de sono e complicações na reconstituição da matriz óssea, quadro que poderia concorrer para o desenvolvimento da osteoporose. É sabido que o estilo de vida influencia na saúde óssea e que hábitos mantidos na juventude e na fase adulta são sentidos na maturidade. O que os estudiosos tentam descobrir é se a qualidade do repouso é mesmo um diferencial. A julgar pelos resultados das duas pesquisas que mencionamos a seguir, a privação de sono deve mesmo comprometer a saúde óssea. Ainda há muito a ser descoberto, mas na dúvida, dormir bem é sempre um excelente investimento em vida saudável.

Após finalizado o período de crescimento, a massa óssea não se converte em uma estrutura imutável, estanque. Completada sua constituição, passa a abrigar processos constantes de renovação do tecido que se mantêm enquanto o indivíduo estiver vivo. O avanço da idade promove um decréscimo natural no ritmo da remodelação óssea, mas não há interrupção total em vida. Suas funções são restaurar microlesões espontâneas e adaptar a matriz óssea de maneira a melhorar suas funcionalidades. Estas reconstituições permanentes caracterizam-se por um equilíbrio entre dois conjuntos de operações: absorção do tecido deteriorado, executada por células chamadas osteoclastos; recomposição da matriz óssea, pelas células do tipo osteoblastos. Quando a recomposição se apresenta em ritmo inferior à absorção, fica estabelecido um quadro denominado osteopenia ou perda de massa óssea, precursora da osteoporose, doença que torna os ossos frágeis e compromete a saúde de idosos e mulheres que atingiram a menopausa.

Pesquisadores vinculados ao Endocrine Society, nos Estados Unidos, avaliaram um grupo de 10 homens durante 3 semanas, com o intuito de identificar possíveis alterações na remodelação óssea decorrentes da privação de sono. Os voluntários não podiam dormir mais do que 6 horas diárias e foram submetidos a variações no horário de início do repouso, como acontece com os trabalhadores por turnos. As análises posteriores ao período de observação demonstraram redução considerável dos níveis de P1NP, Propeptídeo Amino Terminal Procolágeno Tipo 1, um importante indicador da reconstituição óssea. O quadro indicava recomposição da matriz inferior ao volume de tecido deteriorado absorvido, ou seja, a continuidade do desequilíbrio conduziria à perda de massa óssea. Todos os voluntários apresentaram queda no P1NP, inclusive os mais jovens, com idades entre 20 e 27 anos, tendo alguns destes registrado declínio de 27% nos níveis do marcador. Voluntários com mais de 50 anos não tiveram resultados tão negativos quanto os jovens, levando a crer que as consequências impactariam pessoas em qualquer faixa etária. Há alguns anos, pesquisadores do Medical College of Wisconsin realizaram análises idênticas em camundongos, com mecanismos que reduziam o tempo de sono dos animais, chegando a resultados semelhantes quanto à redução da substância indicativa da remodelação óssea. As análises demonstraram não apenas possível comprometimento da reconstituição da matriz óssea, mas também alterações na medula que se acontecessem em humanos, poderiam expor o organismo a graves doenças.

A matriz óssea é constituída de uma parte mineral, composta de elementos como cálcio, fósforo, potássio e magnésio, com maior concentração dos dois primeiros, e uma parte orgânica, formada basicamente por Colágeno Tipo 1. Este composto é fundamental no processo de remodelação óssea, pois agrega certa plasticidade aos ossos, tornando-os menos suscetíveis a fraturas. Sabendo disso, vamos pensar no que acontece ao corpo com a privação de sono: uma elevação considerável dos níveis de cortisol, hormônio que dentre outros efeitos ocasiona a paralisação da síntese de proteínas, incluindo os diferentes tipos de colágeno. O repouso de má qualidade compromete a produção dos colágenos, provavelmente afetando também o Tipo 1, presente na matriz óssea. Outro ponto que merece atenção é a liberação do hormônio do crescimento ou GH, essencial à síntese de proteínas, inclusive colágenos, também afetada pela privação de sono. Pesquisas sobre o tema devem avançar nos próximos anos e elucidar dúvidas ainda existentes, mas é inquestionável que os estudiosos conseguiram demonstrar que o sono de má qualidade tem algum impacto sobre a saúde óssea. Resta saber a gravidade das consequências.

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